Publicado en la Revista Derivas Analíticas – Nº 25 – Agosto de 2026.
Quem não sabe, a esta altura, que a história da psicanálise estará para sempre ligada ao herói trágico, Édipo, que cumpriria seu destino fatal ao conseguir decifrar o enigma da esfinge?
Figura estranha, a esfinge, com corpo de leão, tronco e cabeça femininos… que atormentava diariamente os tebanos com sua questão enigmática: “Qual é o ser que caminha ora com dois pés, ora com três, ora com quatro, e que, contrariamente ao normal, é mais fraco quando usa o maior número de pés?” (GRIMAL, 1993, p. 128) E, como os dias passavam sem resposta, a esfinge impunha seu castigo mortal à cidade desolada… Até que chegou Édipo e encontrou a solução: é o homem, disse. Como recompensa por sua bravura, a cidade de Tebas o proclamou rei, concedendo-lhe como esposa a rainha Jocasta, sua mãe sem que ele o soubesse, viúva do rei Laio, morto numa encruzilhada, pelas mãos de Édipo, seu filho, também sem sabê-lo. Uma boa ilustração do inconsciente, de um saber que não sabemos.
Freud encontrou na tragédia de Sófocles a matriz dos caminhos enviesados que os neuróticos atravessam na experiência da infância até aceder ao desejo, que é a essência mesma do homem, segundo Spinoza. E o que o levou até ali? A busca de uma solução para o enigma que representavam os sintomas histéricos, males do corpo sem uma causalidade orgânica.
Na emoção que provoca a tragédia grega, Freud encontrou sua chave universal: sob a forma de uma ficção, o gênio de Sófocles havia conseguido uma versão épica para a humanização do desejo. Ele descobriu na Outra Cena – assim chamou o inconsciente – o texto do drama individual no qual se tecem os fios do desejo, até conseguir se expressar de uma forma estranha, ignorada, desconhecida.
Não foram poucos os dissabores trazidos por esse audacioso posicionamento freudiano de que, no inconsciente, todos somos pequenos Édipos, e que padecemos de desejos incestuosos aos quais devemos renunciar para nos integrarmos ao funcionamento do mundo, à sociedade e à cultura.
Porém, pouco a pouco, essa mesma sociedade, que inicialmente se escandalizou com sua descoberta, levaria à sua degradação ao converter o trágico em um teatro de marionetes. Basta ouvir a televisão ou o rádio: alusões cômicas ao “complexo de Édipo” não faltam…
O doutor Jacques Lacan dedicou longos anos de seu rigoroso ensino a um verdadeiro ajuste de contas com a versão freudiana, edípica, do desejo na psicanálise. Em primeiro lugar, transformou o famoso complexo em uma metáfora, uma operação simbólica, pela qual o desejo enigmático da mãe – entendido como o primeiro enigma que é preciso enfrentar na vida, recebe como resposta a função do pai, como representante da lei. Graças a essa fórmula, o desejo e a lei se entrelaçam, e obtém-se uma orientação vital que favorece as identificações e as escolhas; sem a qual se está perdido, errático.
Essa análise detalhada do Édipo permitiu a Lacan, em segundo lugar, formular um veredicto positivo: nem todos os seres humanos atravessam um trajeto semelhante ao de Édipo. A clínica psicanalítica comprova que isso não opera em todos os seres humanos; há outras formas de se orientar na existência.
E não só isso, o complexo de Édipo não constitui a última palavra acerca do desejo e do gozo, pois não explica sua causa, apenas seu sentido. A dedução da estrutura lógica que sustentava a versão neurótica do desejo é, na realidade, uma consequência de nossa condição de seres falantes, que nos leva a fabricar ficções para nos sustentarmos nesta mesma realidade.
Esse é “o grande problema da vida”: não é a adaptação, nem as normas, mas o gozo, que Freud chamou de libido, ou melhor, a falha do gozo e os mal-estares que ela acarreta.
Com fina ironia, Lacan ressuscita o enigma, tira-lhe o pó e o torna novamente muito interessante. Édipo havia resolvido o enigma da Esfinge com a resposta “é o homem”. Mas, pergunta Lacan (1969-70/1992, p. 113): “quem sabe o que é o homem?”. Maior ironia ainda é que essa resposta tenha sido dada por Édipo, “o dos pés inchados”. Uma dificuldade para andar que compartilha com sua linhagem.[1] Finalmente, acaba recorrendo à sua filha Antígona como apoio. E, como se não bastasse, a coisa acaba muito mal, uma desgraça duas vezes maior que a anterior se abate sobre a cidade de Tebas, “não mais dizimando seu povo na escolha daqueles que se oferecem à pergunta da esfinge, mas atingindo-o em seu conjunto sob essa forma ambígua chamada a peste, que na temática da Antiguidade fica a cargo da esfinge” (LACAN, 1969-70/1992, p. 114).
Dessa forma, Lacan toma o exemplo do pobre Édipo com a finalidade de nos iluminar sobre os resultados nefastos que podem decorrer da pretensão de se erigir como mestre da verdade, aspirando apagar de uma vez por todas a problemática definição do homem.
Aquele que tenta eliminar o enigma que cada ser humano não só representa como tem seu direito legítimo de reivindicar, está condenado à cegueira e, pior ainda, condena a humanidade à peste, à desaparição. Porque o desejo de cada homem é, em si mesmo, um enigma. Na preservação desse caráter opaco do ser reside a possibilidade de que cada um, um por um, consiga encontrar a resposta que convenha à sua singularidade, compartilhando, sim, com os outros, a condição e o problema, mas excetuando-se, distinguindo-se na forma de formulá-lo e resolvê-lo.
Na solução que cada um inventa, que na psicanálise chamamos de sintoma, reside a singularidade de cada ser, seu estilo pessoal.
A experiência analítica oferece um espaço de elucidação dessa zona obscura pela via da lógica do inconsciente e da estrutura, mas leva em conta o impossível de dizer, de formular, de escrever: é o limite do sentido, do que se pode interpretar.
Freud foi o primeiro a valorizar que no caráter enigmático de certos símbolos, reside a potencialidade criadora da subjetividade. O esclarecimento do inconsciente, do qual formulou suas leis e dinâmica, não reduziu em nada o valor das questões essenciais que não admitem uma resposta universal. Freud chamou esse buraco do simbólico de “umbigo do sonho”, pelo qual o inconsciente “se conecta com o desconhecido”, com o real. Este pode tomar a forma da pergunta: o que quer a mulher? Ou, o que é um pai? Esses grandes enigmas da subjetividade adquirem uma formulação particular na vida de cada um, em sua história. Daí que a verdade, em psicanálise, é sempre particular: em relação ao desejo, não se pode formular uma verdade universal válida para todo o mundo, ao estilo de 2+2 = 4.
Isso quer dizer…
No ensino de Lacan, a dimensão do enigma ocupa um lugar bastante destacado. Na elaboração da estrutura e na própria definição da operação do analista. Vinculado fundamentalmente ao valor estruturante, formador do desejo do Outro, se converte no elemento essencial que, no campo do Outro, suscita a angústia: a angústia é a “manifestação específica do desejo do Outro” (LACAN, 1962-63/2005, p. 169). Mas essa angústia tem um aspecto positivo, pois cria uma distância saudável para o sujeito: desperta-o, coloca-o em movimento, favorecendo a produção de uma resposta subjetiva na qual se articula o próprio desejo do intérprete.
Em seu texto “Da surpresa ao enigma”, Miller (1999, p. 21) expõe aquilo que o caracteriza: o enigma questiona a relação entre significante e significado, fazendo surgir uma distância, um vazio. “Algo é reconhecido como significante […]. Que isso quer dizer é evidente. Mas o que isso quer dizer não pode ser enunciado: permanece velado, falta”. Daí decorre a distinção, no campo da significação, entre quod – sabe-se que há significado – e quid – sabe-se qual é o significado. O enigma é um quod sem quid.[2]
Como dissemos anteriormente, Freud, confrontado ao enigma dos sintomas, mas convencido de que algo queriam dizer, descobriu que respondiam às significações inconscientes do complexo de Édipo. Nesse complexo, tramam-se diferentes significações, entre as quais se destacam as de caráter narcisista. O “dicionário mental” do neurótico o leva, sem que o sujeito o saiba, a interpretar todos os enigmas pela chave edípica.
Muito cedo, e com a lucidez que o caracterizava, Freud advertia sobre os perigos desse código:
Portanto, meus pensamentos são perpassados por uma corrente contínua de “autorreferência” da qual, em geral, não tenho nenhum indício, mas que se denuncia através desses exemplos de esquecimentos […]. É como se eu estivesse obrigado a comparar comigo tudo o que ouço a respeito de outras pessoas; como se meus complexos pessoais fossem postos em alerta todas as vezes que tenho notícia de outra pessoa. É impossível que isso seja uma peculiaridade individual minha; deve conter, antes, uma indicação da maneira como entendemos o ‘outro’ em geral. (FREUD, 1901/1980, p. 38)
É a razão pela qual Lacan advertia os analistas sobre os perigos da compreensão, atualmente promovida como “empatia”. Graças ao seu ensino, tornou-se possível ir mais além do Édipo.
O trabalho do psicanalista responde às exigências de uma formação cujo rigor depende da conquista da diferença absoluta (LACAN, 1964/1985, p. 260).
Texto: Vilma Coccoz
Imagen: Antonio Oba
Tradução: Cristiana Pittella
Revisão da tradução: Ana Helena Souza
Referências
FREUD, S. Psicopatologia da vida cotidiana. In: Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, Vol. VI, 1980. (Trabalho original publicado em 1901).
GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1993.
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original publicado em 1964)
LACAN, J. O Seminário, livro 10: A angústia. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; versão final de Angelina Harari e preparação de texto de André Telles; tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Trabalho original proferido em 1962-63).
LACAN, J. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Ari Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. (Trabalho original publicado em 1969-70)
MILLER, J.-A. De la sorpresa ao enigma. In: MILLER, J.-A. et al. Los inclasificables de la clínica psicoanalítica. Buenos Aires: Paidós, 1999, p. 17-28.
[1] Segundo explica Lacan (1969-70/1992), citando Lévi-Strauss.
[2] Miller explica que Quod permite nomear o que suscita a pergunta “o que significa?”: isso quer dizer algo, não sei o quê…. Quid, é o quid da questão, é sua significação. Entre ambos – entre quod e quid – se estabelece uma relação de temporalidade. O cinema e a literatura fantásticos exploram o primeiro tempo, que mantém em suspenso o vazio.
